terça-feira, 31 de julho de 2007

Jamais esquecerei...


Estas férias foram incomuns, fiz várias coisas pela primeira vez.

Não dá pra citar tudo, aliás, muita coisa será omitida neste relato, mas o essencial será bem falado.
Voei pela primeira vez na minha vida (voei de muitas formas diferentes...).

Fui para São Luis do Maranhão, cidade linda, mágica. Sabe quando você visita lugares nos quais tem a sensação que já foi antes, chegava a dar medo. No centro histórico as paisagens, os casarões, aquelas vielas...Tudo ali parece ter vida própria, é um lugar vivo. Em contraste com a calmaria do domingo, ruas vazias, estabelecimentos fechados é possível ouvir no silencio, cada escadaria tem seu som peculiar, as fachadas te acompanham, é como se elas te olhassem ao passar e tivessem a capacidade de te aceitar, te acolher ali, me senti reconhecida e reconhecendo, não entendi muito bem, mas, estava num lugar meu. Não, não estou maluca, a princípio achei que fosse alguma semelhança com o centro velho de São Paulo ou o centro histórico de Santos, mas, são lugares distintos, há diferenças no traçado da cidade, na arquitetura. Não tem a sofisticação de Santos e nem as grandes construções da velha São Paulo... É especial, é pequena, é simples, mas é como estar em casa, nunca estive tão no “meu lugar”.


Desde de adolescente cultivava uma curiosidade pelo Maranhão e enfim mais de 20 anos depois, chegou o dia de conhecer.
Uma super dica, se alguém quer ir a um lugar para se sentir querido, vá a São Luís. Terá, porém, de ter muita disposição para conversar, as pessoas adoram falar e aos desavisados: não há sotaque nordestino na cidade, não fosse pela culinária divina com iguarias deliciosas, muitos pratos com à base de camarão e aquele tempero delicioso que faz parecer que você está comendo em casa, nem pensaria que está no nordeste. Se bem que pode-se dizer que está no norte, porque o estado faz divisa com a região norte. Alguns dizem que é o “portal da Amazônia”.


A cidade tem a segunda maior população negra do país, só perdendo pra Salvador, mas a beleza da cútis negra está associada a traços finos, delicados, talvez, devido à mistura com os franceses, me disseram também, que os negros que foram trazidos como escravos para o Maranhão eram de “linhagem nobre”, sei lá o que isto quer dizer. O que sei é que pelo sol que brilha na cidade até eu branquela assumida ficaria negra se morasse lá, sei também que achei aquele povo muito bonito, e acho que esse senso não está muito correto, pois só no centro de São Paulo é possível ver muito mais negros, de repente, em São Luís, as pessoas se orgulham mais de sua origem, de sua história e por isso não fiquem preocupados em “clarear a família” como já ouvi muitas vezes por aqui.


Bom, fui de avião, claro – primeira vez – tive um medinho de cara, mas assim que ele subiu fiquei tranqüila, também me lembro sempre das palavras da minha avó, ela dizia “todo mundo tem o dia de morrer, está marcado” então, pra mim não adianta ficar com medo da morte ela chega pra todos. Sem contar que eu sou filhinha querida de Deus né, em pleno caos aéreo não houve nenhum atraso nos aviões em que estava, mas se prefere achar coincidência ou sorte de principiante... Quando cheguei ao aeroporto, fui recebida por um qrupo folclórico do Boi Bumbá, tradicional por lá e ainda fui entrevistada pela Rede Globo para o Jornal local, chique sempre.


Tudo perfeito... Vivi ali naquela cidade os dias mais maravilhosos e inesquecíveis da minha vida. Olho d`Água, é o nome do bairro em que fiquei hospedada, um pouco longe do centro, numa Pousada simples e tranqüila entre o mar e uma reserva florestal. O pessoal de lá foi incrível comigo. Estava em plena época de festas juninas e a cidade era só festa, arraiais montados e cuidadosamente decorados com tecidos de chita florais em todas as avenidas, parques, praças, procissões nas ruas, danças, apresentações do Bumba meu Boi - primeira vez - que aliás, eu virei fã desde criancinha, adorei aquilo, as coreografias bem marcadas, a beleza das vestimentas, mas, principalmente o que me encantou foi o orgulho por levar em frente esta tradição, este era o sentimento estampado nos rostos de cada dançarino. É lindo, é popular, é pacífico, é aberto ao povo, é rico em detalhes e histórias, um espetáculo! Adorei. Quero, aliás, me dedicar a um estudo e produzir um livro sobre esta tradição.


No final da noite na Praça com o peculiar e apropriado nome de “Reviver” o espetáculo foi encerrado por um show de reggae com o cantor César Nascimento e vê se dá pra imaginar, eu, dançando na praça, se você é meu amigo sabe que é difícil conceber... magias de São Luis. Aconteceu uma coisa linda, singela, mas, linda: O calor era de matar e suor escorria da cabeça aos pés e eu doida pra amarrar os cabelos que estavam molhados, claro, não conseguia comprar nada pra prender até que uma vendedora me disse: “Ah, eu não vendo não. Mas, vamos dividir o pão?” Desamarrou os próprios cabelos e me pediu pra cortar a fita que ela estava usando pra dividir comigo, como a gente “paga” um gesto destes? A única coisa que consegui pensar foi em conseguir pra ela um leque, que estava sendo distribuído pela Secretaria de Cultura, só que não encontrei o local, aí perguntei pra uma moça onde ela tinha conseguido o seu e ela simplesmente me deu o dela. Gente, eu fico meio emocionada até agora, não sei se é porque São Paulo é uma cidade tão grande que não há tempo pra estas ações, mas, eu achei muito legal isso tudo...Bom, levei o leque pra vendedora e ela ficou super agradecida.


Na volta pra casa, chorei muito enquanto o avião deixava São Luis, senti uma tristeza muito grande mesmo.


Trouxe um CD e um DVD de músicas regionais e tenho ouvido todos os dias, mas há alguns dias em que ouço o dia todo.

Pra conhecer um pouquinho desta ilha mágica:

http://www.youtube.com/watch?v=ch-3ihQxcOw


Ah, esta música agora é minha:

Ilha Magnética - Cesar Nascimento

Ah, que horizonte belo

De se refletir

Outro dia me disseram

Que o amor nasceu aqui

Saio de trás do sol com o jeito de gurí

Tanto novo como leve o amor nasceu aqui

Ponta da Areia, Olho d'Água e Araçagi mesmo

estando na Raposa eu sempre vou ouvir

a natureza me falando que o amor nasceu aqui

Ah que ilha inexata quando toca o coração,

eu te toco e tu me tocas cai nas cordas do violão

e se um dia eu for embora para bem longe deste chão

eu jamais te esquecerei São Luis do Maranhão

eu jamais te esquecerei São Luis do Maranhão

eu jamais te esquecerei São Luis do Maranhão